
A amiloidose é uma doença rara caracterizada pelo depósito anormal de proteínas nos tecidos do corpo, o que pode afetar vários órgãos, incluindo o coração, rins e sistema nervoso. Existem vários tipos de amiloidose, sendo os principais a amiloidose primária (AL), secundária (AA) e hereditária (genética).
A forma hereditária, também conhecida como amiloidose por transtirretina, é causada por mutações no gene da proteína transtirretina (TTR), que normalmente transporta tiroxina e vitamina A no sangue.
A TTR é produzida pelo fígado (mais de 95%) e pelo plexo coroide e, em menor quantidade, na retina.
A TTR tem a forma de um tetrâmero com 4 subunidades idênticas de 127 aminoácidos cada. O seu gene localiza-se no braço longo do cromossomo 18 (18q12.1) (176300) e contém 4 éxons.
A mutação provoca alterações na estrutura da proteína TTR, que levam a que se desdobre, adquira uma forma anormal e se acumule no organismo, formando depósitos de uma substância fibrilar altamente insolúvel designada por amilóide. Com o tempo, estes depósitos vão-se acumulando nos nervos, principalmente nos que controlam a sensibilidade e o movimento, causando danos progressivos que tendem a agravar-se ao longo do tempo.
Esta forma hereditária da doença é conhecida como polineuropatia amiloidótica familiar (PAF) ou paramiloidose, vulgarmente conhecida como ”Doença dos Pezinhos”.
É uma doença crónica, o que significa que não desaparece com o tempo e que vai evoluindo. Se não tratada, é uma doença marcada por uma elevada mortalidade, podendo, nesses casos, a esperança média de vida ser bastante curta, cerca de 5 a 10 anos.
Por se tratar de uma doença genética, qualquer pessoa que tenha a mutação pode transmiti-la aos filhos, mesmo que não apresente sinais ou sintomas da doença. Se um dos pais for portador da mutação, há 50% de probabilidade de cada filho herdar essa alteração genética.
A amiloidose hereditária por transtirretina foi originalmente descrita em Portugal pelo Prof. Doutor Corino Andrade em 1952. O conhecimento desta nova entidade clínica – amiloidose hereditária – levou a que outros focos da doença começassem a ser identificados noutros países, nos anos 60, sendo encontrada na Suécia e no Japão.
Em 1978, o Doutor Pedro Pinho Costa descobriu que as fibrilas de proteína amiloide são formadas pela pré-albumina, mais tarde denominada como TTR. Em 1984, a Dra. Maria João Saraiva descobriu que a substituição da metionina pela valina na posição 30 da TTR, a Val30Met ou V30M, era a causadora dessa doença.
Estudos sugerem que a amiloidose hereditária do tipo Português (Val30Met) iniciou-se com o primeiro indivíduo durante a Baixa Idade Média (no século XV), e espalhou-se mundialmente devido ao crescimento e às deslocações dessas populações.
Nesta época, foi identificado apenas o fenótipo neurológico da patologia, razão pela qual foi designada de PAF. Décadas mais tarde foram descobertas outras mutações no gene da TTR que levava a uma doença cardíaca, chamada então de Cardiomiopatia Amiloidótica Familiar (CAF) e com o surgimento do transplante hepático notou-se que pacientes com PAF podiam vir a manifestar CAF.
Hoje em dia a Paramiloidose é caracterizada por uma doença multissistêmica com genótipos e fenótipos variados.
Embora a paramiloidose seja uma doença muito rara (menos de 1 caso em 100000 pessoas em todo o mundo), é mais frequente em alguns países, como é o caso de Portugal, em que a mutação Val30Met ocorre em 1 em cada 1000 pessoas, em zonas de maior incidência como é a zona da Póvoa de Varzim/Vila do Conde, no norte de Portugal. Mais de 100 mutações diferentes da TTR foram descritas em todo o mundo, sendo a mutação Val30Met a mais frequente.
Em Portugal, a maior parte das pessoas portadoras da mutação genética Val30Met desenvolve sintomas entre os 30 e os 40 anos, ao passo que na Suécia apenas 5-10% das pessoas portadoras da mesma mutação desenvolvem a doença apenas por volta dos 50 anos de idade.
Outras mutações da TTR estão associadas a sintomas diferentes. Por exemplo a mutação V122I da TTR, frequente nos afroamericanos, está associada a manifestações cardíacas (insuficiência cardíaca), sem que estejam descritas manifestações de polineuropatia como na forma portuguesa de paramiloidose associada à Val30Met.
Se suspeita que possa ser portador de Paramiloidose ou se há histórico da doença na família, é importante consultar o seu médico de família quanto antes.



